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Quando o mundo estiver unido na busca do conhecimento, e não mais lutando por
dinheiro e poder, então nossa sociedade poderá enfim evoluir a um novo nível.
FRANZ KAFKA
CARTA AO PAI
Tradução e posfácio:
MODESTO CARONE
12ª- reimpressão
CARTA AO PAI
Querido Pai:
Você me perguntou recentemente por que eu afirmo ter medo de você. Como de costume,
não soube responder, em parte justamente por causa do medo que tenho de você, em parte
porque na motivação desse medo intervêm tantos pormenores, que mal poderia reuni-los numa
fala. E se aqui tento responder por escrito, será sem dúvida de um modo muito incompleto,
porque, também ao escrever, o medo e suas consequências me inibem diante de você e porque
a magnitude do assunto ultrapassa de longe minha memória e meu entendimento.
Para você a questão sempre se apresentou em termos muito simples, pelo menos
considerando o que falou na minha presença e, indiscriminadamente, na de muitos outros. Para
você as coisas pareciam ser mais ou menos assim: trabalhou duro a vida toda, sacrificou tudo
pelos filhos, especialmente por mim, e graças a isso eu vivi “à larga”, desfrutei de inteira
liberdade para estudar o que queria, não precisei ter qualquer preocupação com o meu
sustento e portanto nenhuma preocupação; em troca você não exigiu gratidão — você conhece
a “gratidão dos filhos” — mas pelo menos alguma coisa de volta, algum sinal de simpatia; ao
invés disso sempre me escondi de você, no meu quarto, com os meus livros, com amigos
malucos, com ideias extravagantes, nunca falei abertamente com você, no templo não ficava a
seu lado, nunca o visitei em Franzensbad,
1 aliás nunca tive sentido de família, não dei atenção
à loja nem aos seus outros negócios, a fábrica eu deixei nas suas costas e depois o abandonei,
apoiei a obstinação de Ottla
2 e, se por um lado não movo um dedo por você (nem uma entrada
de teatro eu lhe trago), pelos amigos eu faço tudo. Se você fizesse um resumo do que pensa de
mim, o resultado seria que na verdade não me censura de nada abertamente indecoroso ou mau
(exceto talvez meu último projeto de casamento), mas sim de frieza, estranheza, ingratidão. E
de fato você me recrimina por isso como se fosse culpa minha, como se por acaso eu tivesse
podido, com uma virada do volante, conduzir tudo para outra direção, ao passo que você não
tem a mínima culpa, a não ser talvez o fato de ter sido bom demais para mim.
Esse seu modo usual de ver as coisas eu só considero justo na medida em que também
acredito que você não tem a menor culpa pelo nosso distanciamento. Mas eu também não tenho
a menor culpa. Se pudesse levá-lo a reconhecer isso, então seria possível, não uma nova vida
— para tanto nós dois estamos velhos demais — mas sem dúvida uma espécie de paz; não a
cessação, mas certamente um abrandamento das suas intermináveis recriminações.
Curiosamente você tem alguma intuição daquilo que eu quero dizer. Assim, por exemplo,
me disse há pouco tempo: “Eu sempre gostei de você, embora na aparência não tenha sido
como costumam ser os outros pais,…







